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Acordo segura o reajuste do gás

Copergás absorveu metade do aumento de 2,52% aplicado pela Petrobras este mês. Os postos prometeram não repassar a alta para os donos dos veículos
Por Felipe Lima
A Companhia Pernambucana de Gás (Copergás) e os postos de combustíveis do Estado montaram, mais uma vez, uma estratégia para evitar um aumento no preço do gás natural veicular (GNV) para os consumidores. Esperam assim manter vivo um segmento que agoniza desde 2007. A distribuidora absorveu metade do reajuste aplicado pela Petrobras no começo do mês, elevando em 1,26% o valor do metro cúbico (m³), em vez de 2,52%. E as revendas se comprometeram a não repassar a alta para os motoristas, mantendo o preço médio do m³ de R$ 1,69.
Outra contrapartida da Copergás é a prorrogação da campanha de subvenção para instalação de kits de gás em automóveis. O programa, anunciado em maio passado, deveria promover 1.000 procedimentos até dezembro de 2010. Mas não emplacou. Segundo o diretor administrativo financeiro da Copergás, Raimundo Bastos, foram realizadas pouco mais de 300, menos de um terço da meta. Sem falar que alguns estabelecimentos instaladores lucraram mais que outros, pois tiveram condições de investir recursos próprios em divulgação – a falta dela é apontada como principal motivo para o fracasso.
Através da campanha, a Copergás paga R$ 500 do valor do serviço, cujo custo médio é de R$ 2 mil. Raimundo Bastos informou que ainda será definido o período de prorrogação, que deve ser de dois a quatro meses. Rejeitou ainda o pensamento de que a primeira etapa tenha sido um fracassada. “Se comparado com outros anos, 300 conversões a mais é uma elevação razoável”, justificou.
Para o gerente da instaladora Pernambuco Gás, Adenilton Gadelha, a única solução para salvar o setor é baixar o preço do m³ do GNV para R$ 1,45. “A campanha não promoveu nenhum aumento de instalações. É só cortar impostos. Não faz porque não quer. O setor de GNV gera impostos e emprego. É só deixar o povo trabalhar”. Há três anos, Gadelha tinha 25 funcionários. Demitiu 68% do quadro e ficou com apenas oito.
A situação foi diferente para a Auto Peças Via Gás. Segundo o gerente Adirton Gusmão, a empresa dobrou o volume de instalações nos seis meses da campanha. “Não foi o que a gente esperava, mas foi bom. Promovemos uma média de 30 a 35 instalações por mês”, comentou, lembrando que precisou desembolsar dinheiro para promover uma maior divulgação.
O programa de subvenção não é o primeiro para estimular o consumo de gás natural em Pernambuco. Em 2005, quando as kombis que faziam transporte irregular de passageiros foram impedidas de circular no Recife, o setor sofreu o primeiro baque. Esses veículos eram os maiores consumidores na época e para reduzir os impactos negativos da saída deles das ruas a Copergás concedeu um subsídio semelhante. Quem promovesse a conversão do veículo ganhava um bônus de R$ 500 para abastecer com GNV.
O setor respirou até 2007. Foi quando a Petrobras começou a aplicar aumentos trimestrais no preço do gás e a Copergás passou a repassá-los – para manter o seu “equilíbrio econômico-financeiro”, conforme costumam afirmar os diretores da empresa. O m³, que custava R$ 1,448 em janeiro de 2007, saltou, gradativamente, para R$ 1,899 em janeiro de 2009. Uma elevação acumulada de 31,1%. O consumo caiu vertiginosamente, postos deixaram de vender GNV e empresas convertedoras fecharam as portas. Ao ponto de hoje só funcionarem 15 em Pernambuco.
Iniciou-se então uma movimentação maior para tentar, novamente, reanimar o consumo. A Copergás promoveu reduções e absorveu aumentos em períodos distintos, fazendo com que, desde então, o preço do m³ tivesse girado em torno de R$ 1,69, com picos de R$ 1,75 em algumas épocas. Ocorre que o problema é maior do que se imagina. O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Pernambuco (Sindicombustíveis-PE), Frederico Aguiar, explica que os custos com manutenção dos kits de gás elimina as vantagens no preço.
Aguiar comentou ainda que nem mesmo os taxistas estão realizando instalações. “É que ao fazer isso, eles perdem a garantia de cinco anos de um veículo novo. Quando analisam o custo-benefício, desistem”. Não há também perspectivas de mais postos passarem a vender o produto. Para comercializar GNV é preciso fazer um investimento de R$ 1 milhão no estabelecimento. Só que a margem de lucro de R$ 0,25 por m³ (que já chegou a R$ 0,40 há quatro anos) não justifica tamanho aporte.
Sindicato diz que litro de etanol passará de R$ 2
O atual cenário, na teoria, é bastante propício para um aumento no consumo de GNV em Pernambuco. É que o seu principal concorrente, o etanol, deverá romper a barreira de R$ 2 nas bombas dos postos de combustíveis do Estado. Essa é a expectativa do presidente do Sindicombustíveis-PE, Frederico Aguiar. Segundo ele, as distribuidoras passaram a cobrar nos últimos dias R$ 0,10 a mais no preço do álcool para as revendas e há notícias de que na próxima semana mais aumentos virão.
Com isso, o produto que hoje sai por, em média, R$ 1,874 o litro para os pernambucanos, deve deixar, definitivamente, de ser mais vantajoso para o consumidor, seja na comparação com a gasolina, seja em relação ao GNV. “Na Bahia, o álcool tem sido vendido a R$ 2,19 o litro”, acrescentou Aguiar.
O diretor de GNV do Sindicombustíveis-PE, Rafael Coelho, reforçou que a tendência é de alta no preço do etanol. “É uma boa oportunidade para alavancar em até 10% as vendas de GNV. Se aumentar 1% apenas não haverá grandes mudanças para o segmento em Pernambuco”, avaliou.
São vários os motivos que justificam a inflação do álcool no Estado, especialmente no mês de fevereiro, que, em anos anteriores, ainda estava inserido no calendário de colheita e moagem de cana-de-açúcar.
Eis o primeiro problema: a expectativa é que a safra 2010-2011 seja entre 4% e 9% menor que a anterior, o que significa menos 1 milhão de toneladas de cana-de-açúcar processadas. Há empresas, inclusive, que já interromperam os trabalhos em janeiro, quando o normal é promoverem uma parada somente em março.
A quebra, justificada por questões climáticas, ocorre em um momento de elevação na demanda por etanol, já que a frota de veículos (a maioria com tecnologia flex) não para de crescer em Pernambuco. Além disso, a produção de álcool foi reduzida nesta safra para dar mais espaço para fabricação de açúcar, em virtude da grande valorização do produto no mercado internacional.
Para ser mais competitivo o preço do litro do álcool deve custar, no máximo, 70% do valor cobrado para o da gasolina. Atualmente, com a gasolina custando R$ 2,654, abastecer com etanol é menos vantajoso para o motorista pernambucano (para que isso ocorresse, o álcool deveria custar até R$ 1,8578). Já a comparação com o GNV é direta: ambos rendem o mesmo. Logo, se o preço pelo m³ é menor, o gás é mais benéfico para o bolso do consumidor.
Fonte: Jornal do Commercio